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A Humanização Social e a Aprendizagem

O homem nasce com habilidades para a aprendizagem. Porém, o aprender só se processa através da interação com o meio. Dessa forma, (VIGOTSKY apud MOLL,1999), o homem não pode ser estudado somente pelo seu aspecto biológico, pois ele constrói, transforma, constituindo-se do produto de sua própria história.
O que difere o ser humano dos animais é esse processo de aprender e transformar o mundo.
Um exemplo dessa diferenciação é quanto aos nossos antepassados que andavam utilizando as mãos e posteriormente aprenderam a caminhar com o corpo ereto, transmitindo essas características às demais gerações.
Podemos verificar atualmente a evolução da criança do nascimento até aproximadamente a um ano de idade, sua aprendizagem é muito rápida em relação aos antepassados. Essa comparação basta-nos até numa observação das crianças nascidas hoje, das crianças nascidas há 20 ou 30 anos atrás. A Humanidade levou milhares de anos para chegar aos conhecimentos e a evolução de hoje, enquanto as crianças aprendem em no máximo três anos toda essa evolução. Muitas vezes, chegando a ultrapassar nossa própria evolução, por não termos disponibilidade para tanta inovação.
É importante ressaltar a interferência cada vez mais vivaz da interação do meio com o indivíduo. Vale citar o caso das irmãs Mala e Kabala (indianas) que foram criadas com lobos e agiam como lobos, seus aspectos biológicos não apresentavam problemas, porém aprenderam conforme os estímulos que receberam. Embora fossem da espécie humana, eram “desumanizadas” pois não obtiveram aspectos e características essenciais para o desenvolvimento humano pleno (MENDONÇA, 2004)
A humanização decorre por meio da aprendizagem e das relações sociais com o mundo cultural, o que diferenciará um ser humano do ser animal.
A criança na idade de zero a dois anos desenvolve biologicamente: o andar, as mãos, a fala, o pensamento, a memória e a atenção concentrada conforme os estímulos propiciados pelos meios. Após essa fase a criança inicia seu processo de amadurecimento social e psicológico articulando com o meio o que já aprendeu, passando a ter atividade humana, desenvolvendo a linguagem e o símbolo conhecido interage com o meio. Essa interação e associação que faz é conforme as experiências que possui e formam seu conceito de linguagem.
Figura 1 – Aquisição da linguagem


Fonte: MENDONÇA, 2004.

A criança começa a expressar seus pensamentos que é uma função mental interativa, dinâmica que permite a relação entre suas experiências, se expressando no raciocínio.
Segundo LURIA apud MOLL (1999, p. 87) “O homem difere dos animais a medida em que pode fazer e usar instrumentos. (Estes instrumentos) não apenas muda radicalmente suas condições de existência, mas até mesmo reagem sobre o homem enquanto efetivam uma mudança nele e em sua condição física”.
Dessa forma, a humanização do indivíduo dependerá dos estímulos recebidos pelo meio, quanto mais favoráveis, melhor será para seu desenvolvimento global.
Uma outra característica relacionada ao processo de humanização do indivíduo engloba aspectos morais, sociais e éticos, conceitos por vezes esquecidos em nossa sociedade por profissionais, seja pela própria individualidade, vida agitada, stress, falta de recursos e/ou descontentamento perante suas responsabilidades.
Nesse caso o profissional não possui um olhar observador ao indivíduo com dificuldades que pertence a um contexto social com características e experiências próprias.
Conforme WALLON apud MOHONEY (2000) o indivíduo pertence a uma tríade, ou seja, deve ser observado perante seus aspectos cognitivos, físicos e afetivos inseridos num contexto social.

Figura 3 – Tríade Walloniana





O motor, o afetivo, o cognitivo, a pessoa, embora cada um desses aspectos tenha identidade estrutural e funcional diferenciada, estão tão integrados que cada um é parte constitutiva dos outros. Sua separação se faz necessária apenas para a descrição do processo. Uma das conseqüências dessa interpretação é de que qualquer atividade humana sempre interfere em todos eles. Qualquer atividade motora tem ressonâncias afetivas e cognitivas; toda disposição afetiva tem ressonâncias motoras e cognitivas; toda operação mental tem ressonâncias afetivas e motoras. E todas essas ressonâncias têm um impacto no quarto conjunto: a pessoa (MOHONEY, 2000, p. 15).

Sob esses aspectos o processo de humanização é contínuo e faz parte de nossa sociedade atual, a evolução e transformação do homem sempre ocorrerão concomitantemente com a evolução e transformação do Mundo, um agindo sobre o outro conforme suas necessidades.
A conscientização da importância da humanização visa o momento em que o indivíduo será visto como um ser global. Quebrando antigos conceitos e rótulos utilizados pelos diversos profissionais a indivíduos que apresentam alguma dificuldade, tratando-o como um ser em constante desenvolvimento e não como uma máquina a ser consertada.

Edilene Dal'Olio
Educadora Especializada em Psicopedagogia Clínica e Institucional
Especialista em Neuropedagogia e Psicanálise

Referência:

MENDONÇA, F.W. Neuropsicologia. Suzano: Faculdade Padre João Bagozzi, 2004. Anotações de aula do Curso de Especialização em Psicopedagogia.
MOHONEY, A.A. Introdução. In: Henri Wallon – Psicologia e educação. São Paulo: Loyola,2000.
MOLL, L.C. Vigotsky e a educação. Porto Alegre/RS: Artmed, 1999.